
Já se passaram tantos janeiros, mas não me acontece de esquecer do Nando. Ele lá no térreo de sua casa ouvindo suas canções prediletas, e repetidas vezes a Legião Urbana. Nando amava mesmo aquelas canções, às vezes dava até a impressão que o sol batia mesmo na janela do seu quarto.
O que poderia me aborrecer a respeito daquele rapaz de bela irmã de olhos azuis seria a insistente imitação de eu estar ébrio (estive sim, ébrio de aguardente). Mas como me divertia aquilo! Desejava que repetisse a imitação. Ele fazia com que aquilo que a mim parecia o ridículo dos ridículos parecesse uma pueril e elegante diversão.
Ah, o Nando, sempre como canção. Fingia distração e ao passar dava um tranco de ombro e se apressava para cuidar que a gente não caísse.
Teve isso: quando saiu o resultado do vestibular e diante de meu sucesso, aquela criança me parecia tão feliz por mim (parabéns, parabéns e inventiva e doce irreverência: se curvava executando um saudação japonesa).
Já se passaram tantos janeiros. O Nando tornou-se um milionário. Dizem, mas não quero acreditar que o Nando agora é petulante e arrogante. E pior: deu no jornal de hoje que ele está sendo investigado por sonegação, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e formação de quadrilha, segundo os policiais e promotores de crimes fazendários. Relata o jornal a fala do Nando, que de voz não ouço há anos: "Estamos tranqüilos. Vamos esperar as coisas acontecerem para que possamos agir dentro da lei"
Será que o aquele garoto teria sido, com o tempo, sucumbido, adulterado, pelo “ Mal da Filargyria” - o apego execessivo ao dinheiro que corrompe o carácter até de gente boa? Será que o Nando perdeu o tesouro que estava guardado dentro daquele coração de menino?
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